Os artigos em português Pessoas Gostando de Aikido
por Gaku Homma, Nippon Kan Kancho
Há cerca de quatro e quatro anos e meio atrás, Marco e sua esposa Bernadette começaram a praticar Aikido. Bernadette tem um emprego muito bom em um banco no Rio de Janeiro, e seu esposo Marco é um músico profissional. Ele, no entanto, não é um músico de rock, ele é um músico clássico e um dos instrumentos que ele toca profissionalmente é o contra baixo. Infelizmente esse instrumento particular não possui importância principal na maior parte das sinfonias orquestrais e Marco brinca consigo mesmo quando ele descreve sua participação musical como sendo capaz de contribuir talvez com o tangenciar de uma nota “bom”, ou talvez de duas “bom, bom” em uma peça. Ele nos contou um incidente no qual ele perdeu o acompanhamento enquanto conversava com o tocador de pratos. Ele ficou tão entretido na conversa que perdeu sua entrada, esquecendo-se de contribuir com um “bom” para a peça. Ele contou essa história com tanta sinceridade que nos fez morrer de tanto rir! Seu filho também é baixista da Orquestra Sinfônica de Nova York, o que o faz sentir-se muito orgulhoso.
Há um ano e meio atrás, Marco e sua esposa Bernadette abriram o Okaeri dojo na região serrana do Rio de Janeiro. A estrutura compreende uma casa de zelador, o dojo, casa com quartos, área externa de treino e uma fazenda orgânica.
Como novos fazendeiros eles fizeram um bom trabalho inicial ao aproveitarem o potencial da terra. Com um pouco mais de pesquisa sobre composição, fertilização e outras técnicas agrícolas, o seu jardim continuará a crescer e literalmente se “carregará de frutos”. Contudo eles têm a natureza do seu lado, apreender a cultivar numa floresta tem suas vantagens!
![]() Foto com o pessoal do Okaeri! |
![]() Agora eles podem praticar Tanren uchi keiko. |
Em minha última visita, na primavera passada, o Okaeri dojo ainda não havia desenvolvido sua área externa de treino para bokken e jo. Durante aquela visita eu deixei alguns esboços de diferentes tipos de mecanismos para a prática de batidas e cortes de bokken e jo, e, a partir desses esboços, os estudantes do Okaeri dojo desenvolveram uma área de treino maravilhosa. Eu vesti rapidamente meu keiko gi e testei a nova aparelhagem. Eu fiquei agradavelmente surpreso, eles haviam feito um ótimo trabalho!
O Okaeri dojo é um lugar onde aikidocas podem se unir e praticar em um lugar natural de paz. Muitos vêm do Rio de Janeiro e das áreas urbanas ao redor nos fins de semana para escapar da pressa e agitação da vida na cidade. Não importam o estilo ou organização, todos são bem vindos. O nome do Okaeri dojo utiliza parte de uma frase japonesa “okaeri nasai” tradução para “bem vindo devolta ao lar”. Este é um nome apropriado para este retiro cujos residentes e visitantes “apenas amam Aikido”.
O Okaeri dojo é também um lugar de encontro para crianças e jovens adultos das cidades e bairros próximos. Seu espaço oferece uma oportunidade única para essas crianças descobrirem e praticarem Aikido com aikidocas vindo do Rio. É um lugar onde há troca de idéias, e os adultos que visitam o Okaeri dojo exercem um importante papel como modelos para os jovens do bairro. Através do Okaeri dojo esses jovens podem entrever sonhos para o seu futuro, e uma oportunidade de estabelecer objetivos e de conquistá-los.
As crianças, obviamente, não pagam taxas pelas aulas. Na verdade, eu soube através do Marco, que algumas crianças andam duas horas para chegarem ao dojo e praticarem. Marco emprestou para algumas crianças uma bicicleta para que elas diminuíssem o tempo de viagem, com o entendimento de que a bicicleta deveria ser utilizada apenas para irem ao dojo e não para brincadeiras.
Comprando bicicletas usadas. Luc Leoni Sensei, Marco, Bernadette.
Eu pensei a respeito de minha própria infância no Japão. Quando eu era criança a maioria das crianças não tinham suas própria bicicletas. Todas as crianças utilizavam as bicicletas de seus pais e tinham que ser muito criativas para poderem pedalá-las ser serem capazes de se sentarem ou mesmo alcançarem os pedais! Nós costumávamos dirigir as bicicletas ficando em pé sobre os pedais enquanto nos inclinávamos de maneira desengonçada abaixo da barra central. Nós podíamos levar de duas a três crianças ao mesmo tempo! QUALQUER criança que tivesse sua própria bicicleta de tamanho apropriado para crianças era invejada por rodas as outras crianças da vizinhança.
Okaeri dojo não é um dojo de uma cidade grande, nem ao menos um dojo de uma cidade pequena, Okaeri dojo é um dojo de um vilarejo. Depois de ter ouvido essa história, eu consegui encontrar dez bicicletas usadas que pudessem ser compradas para serem doadas ao Okaeri dojo para que as crianças possam usar. Para essas crianças bicicletas são mais úteis do que um bokken ou keiko gi, em qualquer lugar você pode encontrar um pedaço de madeira para usar como bokken e você pode vestir praticamente qualquer coisa para praticar, mas uma BICICLETA, é mais valiosa do que ouro!
As bicicletas que compramos serão compartilhadas por todas as outras crianças e serão de sua responsabilidade. Será responsabilidade de todas as crianças cuidarem das bicicletas e mantê-las em bom uso, e em troca, todas as crianças que essas bicicletas forem capazes de carregar serão bem vindas a dirigi-las!
Eu espero ansiosamente por minha próxima visita ao Okaeri dojo. Marco, as notas que você executa na orquestra podem ser poucas, mas as notas que você toca fazem da orquestra um todo. Neste pequeno vilarejo as notas que você toca no Okaeri dojo ressoam ao seu redor, e aqueles que têm a oportunidade de visitar esse dojo são realmente afortunados. Mantenha-se movendo para frente, você e Bernadette estão no caminho certo. Vejo vocês no ano que vem!
Não é nem sequer fim-de-semana, e você pode encontrar pessoas, pessoas, muitas pessoas em todos os lugares das ruas do bairro árabe no centro do Rio de Janeiro. Ladeando as ruas existes fileiras de lojas, com mercadorias formando altas pilhas, algumas pilhas espalhadas sobre mesas fora das lojas no meio das ruas. Vendedores ficam em pé atentos do lado de fora das lojas de seus estabelecimentos, incitando os fregueses a entrarem. Esta área do Rio de Janeiro foi tombada como patrimônio histórico e seus edifícios são protegidos (por lei).
Residentes do bairro são predominantemente imigrantes de países do oriente médio. A área está viva, e a energia das pessoas é contagiante!
Podendo facilmente passar-se despercebida em meio ao movimento e agitação das ruas está a escada que leva ao Bujutsukai dojo. O dojo é de propriedade e é gerenciado pelo Sr. Munzaer. Sr. Munzaer se aproximou de seu pai há alguns anos atrás com o sonho de construir um dojo para a prática de artes marciais.
Seus pais não encontraram na prática de artes marciais ressonâncias com os ensinamentos do Islã, no entanto, em sua sabedoria, seu pai decidiu que era melhor conceder permissão para que ele construísse um dojo por perto do que perder geograficamente um filho, senão de outra forma. O dojo foi construído no segundo andar, exatamente em cima da loja de roupas de seu pai.
![]() As ruas repletas no comércio Árabe (SAARA) no Rio de Janeiro. ![]() Bujustukai dojo. |
![]() Em frente ao dojo com Alvaro. |
Era um pouco depois do meio-dia quando nós fomos visitar o Bujutsukai dojo. Depois de uma negociação, de subirmos a escada e entrarmos no dojo, eu não conseguia ver quase nada enquanto eu perscrutava a sala na escuridão. Eu, com dificuldade, consegui ver algumas figuras esticadas sobre o tatame. Nosso guia, Alvaro, cochichou-me uma explicação, “Esta é uma classe de Ninjitsu, as luzes estão apagadas porque quebram a sua concentração”. Ele me falou isso com o rosto sério, mas eu pude perceber um sorriso depois que ele terminou sua explicação.
Técnicas de Aikido, Karate, Tai Chi, Ninjitsu, Jiu-jitsu, Happkido e Combato são ensinadas no Bujustukai dojo. Minha mente vagou de repente para as mesas nas ruas abaixo empilhadas com mercadorias, esta é uma banca variada de artes marciais! Enquanto eu estava ali pensei que este conceito de dojo é um reflexo da sabedoria da comunidade ao seu redor, a habilidade de cada um de compartilhar com o outro e sobreviver em bairros próximos.
Para mim, que vivo e respiro Aikido todos os dias, foi uma iluminação ver o Aikido metaforicamente enfileirado como numa prateleira de supermercado com outras artes marciais, nem melhor nem pior, apenas parte do grupo! Foi um pouco chocante para mim, mas eu comecei a ver as coisas sob o raciocínio de uma nova luz.
Todas essas artes marciais juntas, trabalham para ajudarem umas as outras a sobreviverem. Nesse ambiente não funcionaria ser um purista ou um elitista e ensinar apenas Aikido. Aqui não é a prática do Aikido como uma arte marcial, mas a prática das artes marciais. Trabalhar com esse conceito permitiu esses grupos co-habitarem e sobreviverem em sua comunidade.
Talvez nós, como aikidocas, às vezes não compreendemos a idéia de que “eu sou um aikidoca” seja igual a “eu sou um artista marcial”. Talvez isso seja um olhar muito estreito. Ver essas artes marciais trabalhando juntas foi uma revelação positiva para mim e abriu meus olhos para a sua realidade.
A prática de Aikido na Bujutsukai é instruída por Marcio Sensei. Da mesma forma que no Okaeri dojo, alguns instrutores de Aikido se reúnem aqui mensalmente para compartilharem seu treino. Foi um lugar interessante para eu ensinar e depois de praticar nos retiramos para um restaurante próximo para um lanche. Encorajado depois de beber uma cerveja gelada eu perguntei se o dojo estava bem financeiramente. Alvaro riu e respondeu, “o dono, Sr. Munzaer é um homem muito bom. Se os estudantes aparecem ele pede a taxa, se eles não aparecem naquele mês, ele não cobra. Marcio Sensei é advogado e ensina Aikido porque ele ama ensinar e praticar Aikido, ele não ensina para ganhar a vida”.
Eu disse antes que “seres humanos criam as artes marciais, as artes marciais não criam seres humanos”. As artes marciais são uma extensão da mente humana. Existem boas e más artes marciais, e ambas são expressões de diferentes partes de nossa natureza humana. Dê uma olhada na história para encontrar exemplos disso, principalmente na história do Japão.
O Aikido hoje é praticado em todo o mundo, e existe tantas razões para sua prática quanto existem lugares para que ele possa ser praticado. Alguns aikidocas praticam dentro da estrutura de grandes organizações que ditam estilo e associação, outros traçam o seu próprio caminho. As pessoas que praticam Aikido simplesmente porque gostam e porque possuem a capacidade de incorporar o Aikido em suas próprias vidas, têm a habilidade de florescerem. Este amor pelo Aikido eu testemunhei em mais dois lugares que visitei pelo mundo; no Okaeri dojo localizado em um lugar afastado da região serrana e Bujutsukai dojo no centro do coração do Rio de Janeiro.
Gaku Homma
Nippon Kan Kancho
17 de Dezembro de 2003
(Tradução de William Soares)





